A Persona Tufão: uma reflexão sobre impacto

Na última viagem de São Paulo a Lençóis Paulista, vivi uma daquelas experiências que o corpo registra antes mesmo do pensamento entender. Foi assustador.

Era noite. A chuva estava muito forte. O vento, violento. Relâmpagos em sequência quase contínua. A visibilidade da estrada era praticamente zero. Eu estava no ônibus, que precisou encostar no acostamento e ser desligado. Tudo ficou escuro. O veículo balançava com a força do vento. O som da chuva contra o vidro era ensurdecedor.

Minutos depois, em um posto, veio a informação: um ciclone extratropical havia passado muito próximo, em sentido oposto ao nosso. Passou “de raspão”, mas foi o suficiente para deixar sua marca.

Uso aqui a metáfora do ciclone/tufão com profundo respeito aos danos reais que esses fenômenos causam a tantas pessoas. Falo do seu aspecto simbólico — força, rota e reverberação — como imagem para pensar impacto, não para romantizar o sofrimento.

Aquilo me atravessou. Não só como experiência sensorial, mas como metáfora. E imediatamente me levou a um outro episódio, anos atrás, no Japão.


Quando o tufão me ensinou sobre impacto (e sobre personas)

Eu estava em Kyoto quando foi emitido o alerta de tufão. Na televisão, os jornais exibiam o mapa do Japão com a rota central prevista do tufão — o caminho principal onde o impacto seria máximo — e, ao redor, uma zona mais ampla de cidades que não seriam atingidas diretamente, mas sentiriam seus efeitos: vento, chuvas, restrições, mudanças no ritmo.

O tufão mudou levemente a rota e não passou pelo centro da cidade. Ainda assim, senti os efeitos da chamada “borda”: bicicletas proibidas, rajadas de vento tão fortes que quase arrancaram meu celular da mão ao sair na rua.

Naquele momento, pela primeira vez, pensei em impacto por camadas. Em rota principal. Em bordas. Em reverberações. E isso nunca mais saiu de mim.


O que um tufão tem a ver com a sua persona?

Tempos depois dessa viagem ao Japão, em um dos cursos de pitch que ministro, ouvi uma questão recorrente: muita gente tem medo de definir persona e de preencher mapa de empatia.

Com falas como: “Meu produto é para mães que gostam de viajar… mas também serve para quem não é mãe e gosta de viajar. Em quem eu foco?”

“Moro fora e vendo brigadeiros. A maioria dos meus clientes são brasileiros que moram fora do Brasil, mas há também estrangeiros curiosos. E aí?”

Foi aí que nasceu a ideia do que chamo de Persona Tufão.

Acredito que toda marca, todo projeto, toda solução precisa de uma rota central de impacto. Alguém para quem a mensagem é direta, precisa, quase inevitável. Essa é a sua persona principal: o centro do tufão.

Mas isso não significa que apenas quem está exatamente nessa rota será impactado.

Assim como no Japão:

  • Há quem esteja no centro da rota → impacto máximo.
  • Há quem esteja nas bordas → impacto relevante, em outro grau.
  • Há quem sinta apenas os efeitos indiretos → mas ainda assim é tocado.

E isso é absolutamente natural.


As “rebabas” da persona (e por que elas também importam)

Já vi isso inúmeras vezes em cursos, mentorias e projetos.

Pessoas que não eram exatamente o público central da promessa, mas estavam ali porque:

  • tinham parte da dor,
  • tinham parte do desejo,
  • tinham parte do futuro que aquela solução prometia.

Exemplo real: O curso era para mães que gostam de viajar. Na sala, havia:

  • pessoas que gostam de viajar, mas são mães de pet;
  • pessoas que gostam de viajar e planejam ser mães;
  • pessoas que são mães, mas nunca viajaram e acreditavam que talvez aquele fosse o empurrão inicial.

Elas não estavam na rota central da persona. Mas estavam, claramente, na borda do tufão.

Foram impactadas. Engajaram. Compraram. Aplicaram.


O erro não é definir a persona. É não entender o raio de impacto.

Quando você não define sua rota central:

  • sua comunicação se dilui;
  • sua mensagem perde força;
  • seu posicionamento fica confuso;
  • você fala com todos… e não conecta profundamente com ninguém.

Quando você define com clareza:

  • a mensagem ganha direção;
  • o impacto se intensifica;
  • e, paradoxalmente, mais pessoas são tocadas — inclusive as que estão nas bordas.

Porque impacto não é só sobre quem é “exatamente igual”. É sobre quem está perto o suficiente para sentir o movimento.


A lógica da Persona Tufão

Você não precisa ter medo de desenhar seu cliente ideal. Você só precisa compreender três camadas:

Rota central Quem você quer impactar diretamente. Sua persona principal, seu cliente ideal!

Zonas de borda Quem compartilha parte da dor, do desejo ou do momento de vida.

Efeitos indiretos Quem se conecta por identificação, projeção ou preparação para o futuro.

O problema nunca foi definir a persona. O problema sempre foi achar que ela exclui, quando, na verdade, ela organiza o impacto.

Nem todo impacto precisa ser central para ser transformador. Mas todo impacto precisa de uma rota clara para existir.

Ouse traçar a sua. 🌪️

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